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Ortopedia e traumatologia · Guia

Entorse do tornozelo: o que esclarecer na avaliação?

A entorse do tornozelo é uma lesão frequente no esporte e no dia a dia. Veja quais perguntas a avaliação procura responder, quando a radiografia ajuda e por que a recuperação ativa costuma ser o caminho.

Por João Brígido, médico Publicado em Leitura estimada: 4 min

Depois de torcer o tornozelo, é comum querer saber logo duas coisas: se algum osso quebrou e quanto tempo vai levar para voltar à rotina. A resposta depende de perguntas que a avaliação precisa fazer antes de qualquer decisão.

Este texto organiza essa conversa sobre a lesão, os exames e a recuperação. Ele não pretende definir uma conduta individual pela internet.

O que acontece em uma entorse?

A entorse acontece quando o tornozelo vira além do que os ligamentos suportam. Ligamentos são faixas firmes que unem um osso a outro e dão estabilidade à articulação. No movimento mais comum, o pé vira para dentro, e os ligamentos da parte de fora do tornozelo são estirados ou rompidos, em parte ou totalmente.

É uma lesão frequente, no esporte e no dia a dia. Muitas entorses evoluem bem, mas algumas pessoas ficam com instabilidade crônica no tornozelo, o que reforça a importância de uma recuperação bem conduzida.1

Quais perguntas a avaliação procura responder?

A primeira pergunta é se há fratura. A segunda é qual a extensão da lesão nos ligamentos. Para respondê-las, a avaliação considera como aconteceu a torção, se foi possível apoiar o pé logo depois, onde estão a dor e o inchaço e se já houve entorses anteriores no mesmo lado.

O exame físico procura pontos de dor sobre os ossos, avalia a capacidade de apoiar o pé e testa a estabilidade da articulação. Nos primeiros dias, a dor e o inchaço podem atrapalhar esse exame. A diretriz de referência sobre o tema indica que um exame feito alguns dias depois da torção, entre o quarto e o quinto dia, avalia melhor a lesão dos ligamentos.1

Quando a radiografia é necessária?

Nem toda entorse precisa de radiografia. Regras clínicas, como as Regras de Tornozelo de Ottawa, combinam a dor ao toque em pontos específicos dos ossos com a capacidade de apoiar o pé e dar alguns passos para decidir quando o exame é necessário.1,2

Uma revisão sistemática publicada no BMJ concluiu que essas regras identificam quase todas as fraturas do tornozelo e do meio do pé e que seu uso deve reduzir em 30% a 40% as radiografias desnecessárias.2 São ferramentas para o exame presencial, feito por profissionais, e não um teste para fazer em casa.

Como costuma ser a recuperação?

A diretriz recomenda o tratamento funcional: em vez de imobilizar o tornozelo por longos períodos, a recuperação inclui movimento e exercícios orientados, com retorno gradual às atividades.1 Os exercícios devem começar o quanto antes depois da torção, e bandagens e tornozeleiras têm papel na prevenção de novas entorses.1

A cirurgia não é o caminho habitual depois de uma entorse. Ela costuma ser considerada em situações específicas, como a instabilidade que persiste mesmo depois de um tratamento adequado com exercícios.1 O plano de cada pessoa depende da gravidade da lesão, da atividade que ela pratica e de como o tornozelo evolui.

Quando procurar atendimento?

Deformidade visível, dor intensa sobre os ossos, impossibilidade de apoiar o pé e dar alguns passos, dormência ou pé frio pedem avaliação no mesmo dia. Também vale procurar avaliação quando a dor e o inchaço não melhoram com o passar dos dias, quando o tornozelo parece falsear com frequência ou quando as entorses se repetem.

O que deve ficar entendido?

A entorse do tornozelo é uma lesão comum dos ligamentos, mas não deve ser tratada como banal. A avaliação procura afastar fratura, estimar a lesão e orientar uma recuperação ativa, com exercícios desde cedo e, quando indicado, bandagens ou tornozeleiras para prevenir novas torções. O tempo e o plano de recuperação dependem de cada caso.

Referências

  1. Diagnosis, treatment and prevention of ankle sprains: update of an evidence-based clinical guideline. Vuurberg G et al. British Journal of Sports Medicine, 2018;52(15):956. Sustenta: uso das regras de Ottawa, exame tardio da lesão ligamentar, tratamento funcional, prevenção de novas entorses e lugar da cirurgia na instabilidade crônica.
  2. Accuracy of Ottawa ankle rules to exclude fractures of the ankle and mid-foot: systematic review. Bachmann LM et al. BMJ, 2003;326(7386):417-9. Sustenta: uso das Regras de Tornozelo de Ottawa para afastar fraturas e reduzir radiografias desnecessárias.

Fontes consultadas em 20 de outubro de 2026.

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