Psiquiatria e saúde mental · Guia
Crianças e adolescentes: quais sinais pedem uma avaliação?
Fases difíceis fazem parte do crescimento. Veja quais mudanças merecem atenção, como costuma ser a avaliação de uma criança ou de um adolescente e quando a ajuda deve ser imediata.
Toda criança passa por fases de birra, medo, timidez ou rebeldia, e boa parte delas faz parte do crescimento. O que merece atenção é o comportamento ou a emoção que dura semanas ou mais, causa sofrimento à criança ou à família ou atrapalha a vida em casa, na escola ou com os amigos.1
Este texto ajuda pais e responsáveis a reconhecer sinais que pedem uma conversa com um profissional e explica como costuma ser uma avaliação. Ele não substitui a avaliação de uma criança ou de um adolescente específico.
Como diferenciar uma fase de um problema?
Nenhum comportamento isolado define um problema de saúde mental. Muitas crianças sentem medos e preocupações de vez em quando ou têm comportamentos difíceis.2 Um transtorno mental passa a ser considerado quando os sinais são graves e persistentes e atrapalham a vida em casa, na escola e nas brincadeiras.2 Para conversar com um profissional, não é preciso chegar a esse ponto.
Vale também comparar a criança com ela mesma. Uma criança que sempre foi tranquila e passou a ter explosões frequentes, ou um adolescente sociável que passou a se isolar, mudou de um jeito que merece ser entendido, mesmo que o comportamento pareça comum em outras crianças da mesma idade.
Por que vale prestar atenção cedo?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de um em cada sete jovens de 10 a 19 anos tem algum transtorno mental, e boa parte desses quadros não é reconhecida nem tratada.3 Uma meta-análise de 192 estudos estimou que, entre as pessoas com algum transtorno mental, cerca de um terço teve o início antes dos 14 anos e quase metade antes dos 18.4
Prestar atenção cedo não significa rotular. Significa oferecer apoio enquanto as dificuldades ainda são menores, o que pode ajudar a evitar que se acumulem prejuízos na escola, na autoestima e nas relações.
Que sinais merecem uma conversa com um profissional?
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) lista sinais que justificam conversar com o pediatra ou com outro profissional de saúde.1 Em crianças pequenas, alguns deles são:
- birras frequentes ou irritação na maior parte do tempo;
- parecer com medo ou preocupada com frequência;
- queixas frequentes de dor de barriga ou de cabeça sem causa médica conhecida;
- estar sempre em movimento, sem conseguir ficar quieta, fora das atividades de que gosta muito;
- dormir demais ou de menos, ter pesadelos frequentes ou parecer sonolenta durante o dia;
- dificuldade de fazer amigos ou queda recente no rendimento escolar.
Em crianças maiores e adolescentes:
- perda de interesse pelas coisas de que antes gostava e pouca energia;
- passar cada vez mais tempo sozinho, evitando amigos e família;
- períodos de energia muito elevada, com muito menos necessidade de sono;
- dietas ou exercícios excessivos, ou medo de ganhar peso;
- fumar, beber ou usar drogas;
- ter comportamentos arriscados ou destrutivos, sozinho ou com amigos;
- machucar-se de propósito ou ter pensamentos de suicídio;
- dizer que acha que alguém está tentando controlar sua mente ou que ouve coisas que os outros não ouvem.
A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (AACAP) inclui ainda, entre os sinais de alerta, explosões frequentes de raiva e agressividade e uma queda importante no rendimento escolar.5
Como costuma ser a avaliação?
A avaliação de uma criança ou de um adolescente ouve mais de uma pessoa. Ela costuma incluir a conversa com os pais ou responsáveis e com a própria criança ou adolescente, a história do desenvolvimento, da saúde, da família, da escola e das amizades e, quando necessário, exames e avaliações complementares.6 O contato com a escola depende da autorização dos responsáveis, e a avaliação completa pode levar algumas horas, em uma ou mais consultas.6
A participação dos responsáveis é essencial, porque o cuidado acontece em casa e na escola. Um diagnóstico, quando existe, é construído a partir desse conjunto de informações, e não de um único comportamento.
Perguntar sobre suicídio pode piorar?
Muitos pais temem tocar no assunto. Uma revisão de 13 estudos, com adolescentes e adultos, mostrou que perguntar diretamente sobre pensamentos de suicídio não aumentou esses pensamentos, e há indícios de que falar sobre o assunto pode até reduzi-los.7 Perguntar com calma e sem julgamento abre espaço para que a criança ou o adolescente conte o que sente.
Quando a ajuda precisa ser imediata?
Falas sobre querer morrer, sobre se machucar ou sobre machucar outra pessoa, comportamentos que põem a criança em perigo e ferimentos provocados de propósito pedem ajuda imediata, e não uma consulta para daqui a semanas.1,5 Nessas situações, procure um serviço de urgência, como uma UPA 24h ou um pronto-socorro.8
O que deve ficar entendido?
Fases difíceis fazem parte do crescimento; o que pede avaliação é a mudança persistente, intensa ou que atrapalha a vida da criança. A avaliação ouve a criança, a família e, quando preciso, a escola. Este texto ajuda a reconhecer sinais; a resposta para cada criança ou adolescente depende de avaliação individual.
Referências
- Children and Mental Health: Is This Just a Stage? National Institute of Mental Health (NIMH), Estados Unidos. Material informativo, 2024. Sustenta: sinais que justificam uma avaliação em crianças pequenas e em crianças maiores e adolescentes, duração, sofrimento e prejuízo como critérios, conversa com o pediatra e ajuda imediata diante de risco.
- About Children's Mental Health. Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Estados Unidos. Página informativa. Sustenta: medos e comportamentos difíceis ocasionais e o limiar para considerar um transtorno mental (sintomas graves e persistentes que atrapalham a vida em casa, na escola e nas brincadeiras).
- Mental health of adolescents. Organização Mundial da Saúde (OMS). Ficha informativa, 2025. Sustenta: frequência de transtornos mentais entre 10 e 19 anos e casos não reconhecidos nem tratados.
- Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Solmi M et al. Molecular Psychiatry, 2022;27(1):281-95. Sustenta: proporção das pessoas com algum transtorno mental cujo quadro começou antes dos 14 e dos 18 anos.
- When to Seek Help for Your Child (Facts for Families nº 24). American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP), Estados Unidos. Material informativo. Sustenta: explosões frequentes de raiva e agressividade e queda importante no rendimento escolar entre os sinais de alerta.
- Comprehensive Psychiatric Evaluation (Facts for Families nº 52). American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP), Estados Unidos. Material informativo. Sustenta: o que a avaliação de criança ou adolescente costuma incluir, duração e contato com a escola mediante autorização dos responsáveis.
- Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence? Dazzi T et al. Psychological Medicine, 2014;44(16):3361-3. Sustenta: em 13 estudos com adolescentes e adultos, perguntar sobre suicídio não aumentou os pensamentos suicidas, e pode até reduzi-los.
- Suicídio: prevenção. Ministério da Saúde, Brasil. Página oficial. Sustenta: onde buscar ajuda (SAMU 192, UPA 24h, pronto-socorro e CVV 188).
Fontes consultadas em 20 de outubro de 2026.