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Psiquiatria e saúde mental · Guia

Crianças e adolescentes: quais sinais pedem uma avaliação?

Fases difíceis fazem parte do crescimento. Veja quais mudanças merecem atenção, como costuma ser a avaliação de uma criança ou de um adolescente e quando a ajuda deve ser imediata.

Por João Brígido, médico Publicado em Leitura estimada: 5 min

Toda criança passa por fases de birra, medo, timidez ou rebeldia, e boa parte delas faz parte do crescimento. O que merece atenção é o comportamento ou a emoção que dura semanas ou mais, causa sofrimento à criança ou à família ou atrapalha a vida em casa, na escola ou com os amigos.1

Este texto ajuda pais e responsáveis a reconhecer sinais que pedem uma conversa com um profissional e explica como costuma ser uma avaliação. Ele não substitui a avaliação de uma criança ou de um adolescente específico.

Como diferenciar uma fase de um problema?

Nenhum comportamento isolado define um problema de saúde mental. Muitas crianças sentem medos e preocupações de vez em quando ou têm comportamentos difíceis.2 Um transtorno mental passa a ser considerado quando os sinais são graves e persistentes e atrapalham a vida em casa, na escola e nas brincadeiras.2 Para conversar com um profissional, não é preciso chegar a esse ponto.

Vale também comparar a criança com ela mesma. Uma criança que sempre foi tranquila e passou a ter explosões frequentes, ou um adolescente sociável que passou a se isolar, mudou de um jeito que merece ser entendido, mesmo que o comportamento pareça comum em outras crianças da mesma idade.

Por que vale prestar atenção cedo?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de um em cada sete jovens de 10 a 19 anos tem algum transtorno mental, e boa parte desses quadros não é reconhecida nem tratada.3 Uma meta-análise de 192 estudos estimou que, entre as pessoas com algum transtorno mental, cerca de um terço teve o início antes dos 14 anos e quase metade antes dos 18.4

Prestar atenção cedo não significa rotular. Significa oferecer apoio enquanto as dificuldades ainda são menores, o que pode ajudar a evitar que se acumulem prejuízos na escola, na autoestima e nas relações.

Que sinais merecem uma conversa com um profissional?

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) lista sinais que justificam conversar com o pediatra ou com outro profissional de saúde.1 Em crianças pequenas, alguns deles são:

  • birras frequentes ou irritação na maior parte do tempo;
  • parecer com medo ou preocupada com frequência;
  • queixas frequentes de dor de barriga ou de cabeça sem causa médica conhecida;
  • estar sempre em movimento, sem conseguir ficar quieta, fora das atividades de que gosta muito;
  • dormir demais ou de menos, ter pesadelos frequentes ou parecer sonolenta durante o dia;
  • dificuldade de fazer amigos ou queda recente no rendimento escolar.

Em crianças maiores e adolescentes:

  • perda de interesse pelas coisas de que antes gostava e pouca energia;
  • passar cada vez mais tempo sozinho, evitando amigos e família;
  • períodos de energia muito elevada, com muito menos necessidade de sono;
  • dietas ou exercícios excessivos, ou medo de ganhar peso;
  • fumar, beber ou usar drogas;
  • ter comportamentos arriscados ou destrutivos, sozinho ou com amigos;
  • machucar-se de propósito ou ter pensamentos de suicídio;
  • dizer que acha que alguém está tentando controlar sua mente ou que ouve coisas que os outros não ouvem.

A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (AACAP) inclui ainda, entre os sinais de alerta, explosões frequentes de raiva e agressividade e uma queda importante no rendimento escolar.5

Como costuma ser a avaliação?

A avaliação de uma criança ou de um adolescente ouve mais de uma pessoa. Ela costuma incluir a conversa com os pais ou responsáveis e com a própria criança ou adolescente, a história do desenvolvimento, da saúde, da família, da escola e das amizades e, quando necessário, exames e avaliações complementares.6 O contato com a escola depende da autorização dos responsáveis, e a avaliação completa pode levar algumas horas, em uma ou mais consultas.6

A participação dos responsáveis é essencial, porque o cuidado acontece em casa e na escola. Um diagnóstico, quando existe, é construído a partir desse conjunto de informações, e não de um único comportamento.

Perguntar sobre suicídio pode piorar?

Muitos pais temem tocar no assunto. Uma revisão de 13 estudos, com adolescentes e adultos, mostrou que perguntar diretamente sobre pensamentos de suicídio não aumentou esses pensamentos, e há indícios de que falar sobre o assunto pode até reduzi-los.7 Perguntar com calma e sem julgamento abre espaço para que a criança ou o adolescente conte o que sente.

Quando a ajuda precisa ser imediata?

Falas sobre querer morrer, sobre se machucar ou sobre machucar outra pessoa, comportamentos que põem a criança em perigo e ferimentos provocados de propósito pedem ajuda imediata, e não uma consulta para daqui a semanas.1,5 Nessas situações, procure um serviço de urgência, como uma UPA 24h ou um pronto-socorro.8

O que deve ficar entendido?

Fases difíceis fazem parte do crescimento; o que pede avaliação é a mudança persistente, intensa ou que atrapalha a vida da criança. A avaliação ouve a criança, a família e, quando preciso, a escola. Este texto ajuda a reconhecer sinais; a resposta para cada criança ou adolescente depende de avaliação individual.

Referências

  1. Children and Mental Health: Is This Just a Stage? National Institute of Mental Health (NIMH), Estados Unidos. Material informativo, 2024. Sustenta: sinais que justificam uma avaliação em crianças pequenas e em crianças maiores e adolescentes, duração, sofrimento e prejuízo como critérios, conversa com o pediatra e ajuda imediata diante de risco.
  2. About Children's Mental Health. Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Estados Unidos. Página informativa. Sustenta: medos e comportamentos difíceis ocasionais e o limiar para considerar um transtorno mental (sintomas graves e persistentes que atrapalham a vida em casa, na escola e nas brincadeiras).
  3. Mental health of adolescents. Organização Mundial da Saúde (OMS). Ficha informativa, 2025. Sustenta: frequência de transtornos mentais entre 10 e 19 anos e casos não reconhecidos nem tratados.
  4. Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Solmi M et al. Molecular Psychiatry, 2022;27(1):281-95. Sustenta: proporção das pessoas com algum transtorno mental cujo quadro começou antes dos 14 e dos 18 anos.
  5. When to Seek Help for Your Child (Facts for Families nº 24). American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP), Estados Unidos. Material informativo. Sustenta: explosões frequentes de raiva e agressividade e queda importante no rendimento escolar entre os sinais de alerta.
  6. Comprehensive Psychiatric Evaluation (Facts for Families nº 52). American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP), Estados Unidos. Material informativo. Sustenta: o que a avaliação de criança ou adolescente costuma incluir, duração e contato com a escola mediante autorização dos responsáveis.
  7. Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence? Dazzi T et al. Psychological Medicine, 2014;44(16):3361-3. Sustenta: em 13 estudos com adolescentes e adultos, perguntar sobre suicídio não aumentou os pensamentos suicidas, e pode até reduzi-los.
  8. Suicídio: prevenção. Ministério da Saúde, Brasil. Página oficial. Sustenta: onde buscar ajuda (SAMU 192, UPA 24h, pronto-socorro e CVV 188).

Fontes consultadas em 20 de outubro de 2026.

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