Psiquiatria e saúde mental · Guia
Insônia: quais perguntas ajudam a entender o problema?
Dormir mal de vez em quando é comum; a insônia que se prolonga merece ser entendida. Veja quais perguntas a avaliação faz, para que serve o diário do sono e o que se sabe sobre o tratamento.
Uma noite mal dormida de vez em quando faz parte da vida. A insônia é outra situação: dificuldade para pegar no sono ou para manter o sono, ou o despertar mais cedo do que o desejado, mesmo quando há tempo e condições para dormir, com consequências durante o dia, como cansaço, irritação e dificuldade de concentração.1,2
Entender a insônia começa por perguntas sobre o sono, a rotina e a saúde, e não pela escolha de um remédio. Este texto organiza essas perguntas; ele não substitui a avaliação de um caso individual.
Quando a insônia deixa de ser passageira?
Muitas pessoas dormem mal por alguns dias ou semanas diante de uma preocupação, de uma mudança de rotina ou de um problema de saúde. Quando dura menos de três meses, o quadro é chamado de insônia de curta duração.2
Fala-se em insônia crônica quando as dificuldades aparecem em pelo menos três noites por semana e se mantêm por três meses ou mais.1 O dia seguinte também conta: quem dorme mal, mas não tem nenhum prejuízo durante o dia, não recebe o diagnóstico de transtorno de insônia.1
Que perguntas a avaliação faz sobre o sono?
A avaliação da insônia se baseia principalmente na entrevista clínica, com a história do sono e da saúde.1,5 Algumas perguntas costumam fazer parte da conversa:
- desde quando o problema existe e o que estava acontecendo quando ele começou;
- em quantas noites por semana ele aparece;
- quanto tempo leva para dormir, quantas vezes acorda e quanto tempo fica acordado;
- a que horas deita e levanta, nos dias de trabalho e nas folgas, e se cochila durante o dia;
- como se sente no dia seguinte: cansaço, sonolência, irritação ou dificuldade de atenção.
Também entram na conversa o estresse e o humor, o trabalho em turnos, o ambiente do quarto, o uso de cafeína, álcool e nicotina, os medicamentos em uso, a dor e outras condições de saúde.1,2
Para que serve o diário do sono?
Lembrar como foram as últimas semanas é difícil. O diário do sono ajuda a enxergar o padrão geral das noites, e não só uma noite marcante.5 Por pelo menos uma a duas semanas, a pessoa anota a hora em que deitou, quanto demorou para dormir, os despertares, a hora em que acordou e a hora em que levantou, os cochilos e, muitas vezes, uma nota para a qualidade da noite.1,5
A polissonografia, exame que registra o sono durante a noite, não é necessária para diagnosticar a insônia. Ela é indicada quando há suspeita de outros distúrbios do sono, como a apneia e outros problemas de respiração durante a noite ou os movimentos periódicos das pernas, e nos casos de insônia que não responde ao tratamento.1
Quando o sono ruim aponta para outro problema?
Nem toda noite mal dormida é insônia. Ronco alto, engasgos e pausas na respiração durante o sono podem indicar apneia do sono.6 Uma vontade intensa de mexer as pernas, em geral à noite e em repouso, sugere a síndrome das pernas inquietas.7 São condições diferentes, com avaliação e tratamento próprios.
A insônia aparece com frequência junto com a ansiedade e a depressão, e a insônia crônica é, por si só, um fator de risco para o desenvolvimento de depressão e de transtornos de ansiedade.1 Por isso, a avaliação pergunta sobre o humor, as preocupações e o uso de substâncias.
Uma situação merece atenção especial: dormir muito pouco sem sentir cansaço, com energia aumentada e a sensação de dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Esse quadro não é o mesmo que a insônia e pode fazer parte de um episódio de mania ou de hipomania.4 Nesse caso, vale procurar avaliação médica sem demora.
O que se sabe sobre o tratamento?
Para a insônia crônica em adultos, a terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida pela sigla TCC-I, é recomendada como primeira opção, inclusive para quem tem outras condições de saúde.1,3 Ela reúne técnicas que reorganizam os horários e o tempo na cama e trabalham os pensamentos sobre o sono, e pode ser feita presencialmente ou em formato digital.1,3
As orientações de higiene do sono, como evitar cafeína à noite, podem fazer parte desse tratamento, mas a diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono sugere não usá-las sozinhas para tratar a insônia crônica.3 Alguns medicamentos podem ser usados no tratamento de curto prazo; o uso prolongado só é considerado em alguns casos, pesando vantagens e desvantagens.1 Quem já usa um remédio para dormir não deve interrompê-lo nem mudar a dose por conta própria: a mudança precisa ser combinada com quem acompanha o tratamento.
Quando procurar uma avaliação?
Vale procurar avaliação quando as mudanças de hábito não resolveram, quando o sono ruim se arrasta por meses ou quando ele atrapalha a vida a ponto de dificultar o dia a dia.2 Sonolência durante o dia, sobretudo ao dirigir, e pausas na respiração percebidas por quem dorme junto também são motivos para conversar com um médico; enquanto isso, não dirija com sono.2,6
O que deve ficar entendido?
A insônia é definida pela dificuldade de dormir com consequências durante o dia, e não apenas pelo número de horas na cama. A avaliação começa pela história do sono, pode usar um diário e procura outras condições que atrapalham as noites. Para a insônia crônica, a TCC-I é a primeira recomendação, e qualquer decisão sobre remédios depende de avaliação individual.
Referências
- The European Insomnia Guideline: An update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. Riemann D et al. Journal of Sleep Research, 2023;32(6):e14035. Sustenta: definição de insônia e de insônia crônica, prejuízo diurno como parte do diagnóstico, entrevista clínica e diário do sono, lugar da polissonografia, insônia como fator de risco para depressão e ansiedade, TCC-I como primeira opção e uso de medicamentos a curto prazo.
- Insomnia. National Health Service (NHS), Reino Unido. Página informativa. Sustenta: consequências durante o dia, insônia de curta duração, fatores que costumam atrapalhar o sono, quando procurar um médico e não dirigir com sono.
- Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Edinger JD et al. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2021;17(2):255-62. Sustenta: TCC-I com vários componentes recomendada para a insônia crônica e sugestão de não usar a higiene do sono como tratamento único (recomendação condicional).
- Bipolar Disorder. National Institute of Mental Health (NIMH), Estados Unidos. Material informativo, 2025. Sustenta: menor necessidade de sono, sem cansaço, como característica de episódios de mania e de hipomania.
- Clinical guideline for the evaluation and management of chronic insomnia in adults. Schutte-Rodin S et al. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2008;4(5):487-504. Sustenta: diagnóstico pela história do sono e o que o diário do sono registra.
- Sleep apnoea. National Health Service (NHS), Reino Unido. Página informativa. Sustenta: pausas na respiração, ronco alto e engasgos durante o sono como sinais de apneia e cansaço durante o dia.
- Restless legs syndrome. National Health Service (NHS), Reino Unido. Página informativa. Sustenta: vontade intensa de mexer as pernas, em geral à noite, em repouso.
Fontes consultadas em 20 de outubro de 2026.